Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]



O Terrível

por MC, em 20.06.15

 

O Ivan entrou na sala chamando a si todos os holofotes, como sempre faz: a porta aberta de rompante, as cabeças a virarem-se, o discurso interrompido do professor. Caminha bamboleante e desarticulado, os ombros puxados à frente, como se fosse defender-se de um golpe a qualquer instante. A camisola de mangas à cava, de um vermelho puído, demasiado grande para o seu corpo de rapazelho franzino, espicha nas pontas com os vincos das molas do estendal. Nas sapatilhas, uma arrojada combinação de cores berrantes que atrairia todas as atenções, não fora o cheiro pestilento a peúgas em decomposição que delas voluteava a roubar para si todo o protagonismo.

Arrastou a cadeira teatral e ruidosamente e sentou-se de viés, com as pernas esticadas e afastadas, um braço apoiado no encosto da cadeira demasiado pequena, numa pose descontraída de esplanada. ‘Qué que foi?’, lançou para a plateia, a curva da sobrancelha levantada, os lábios arrepanhados a um canto num sorrisinho pretensamente sarcástico.

Na frente da sala, o professor, perdida a linha de raciocínio, apercebe-se do braço imóvel a caminho do quadro e deixa-o repousar ao longo do corpo. Os seus olhos cruzam-se com os do Ivan, como num duelo ao entardecer. A cena não é nova, é recorrente e cansativa.

Desde que começou o ano escolar, o Ivan já recebeu todos os castigos que a escola tem para comportamentos como o dele. Já ouviu repreensões de todos os professores, da directora de turma, do director da escola; já foi expulso da sala em todas as disciplinas, já foi castigado com tarefas na escola, já foi suspenso três vezes: primeiro um dia, logo em Outubro, depois três no segundo período e finalmente oito dias. Nenhum destes castigos o incomodou, assim como lhe será completamente indiferente o que o professor lhe disser ou fizer agora. Todos naquela sala, todos naquela escola, sabem disso. O Ivan tem dezasseis anos e está, pela terceira vez, no sétimo ano. Também reprovou uma vez no quarto, outra no quinto.

Não há nada na escola que o Ivan valorize. Não conhece ninguém para quem a escola tivesse sido uma mais-valia. Não consegue lembrar-se de uma pessoa – nem umazinha - cujo sucesso na vida admire ou cobice e que tenha tido o percurso escolar como ponto de partida. Acalenta secretamente o sonho de ser rico e famoso, de preferência antes dos vinte. Não sabe ainda bem como vai conseguir tal proeza, mas imagina-se a passear-se pelo bairro, em noite quente de arraial, a cumprimentar vizinhos e conhecidos que lhe dão palmadinhas nas costas e a quem paga cervejas e caracóis e frangos assados, como o primo Edgar, que cedo deixou a escola (lá está!) e foi trabalhar de servente de pedreiro para a França, de onde volta a cada a verão, a transpirar ‘eurrôs’ por todos os poros.

O Ivan não sabe como vai conseguir concretizar os seus sonhos, mas tem a certeza que o caminho para o futuro farto que ambiciona para si não passa pela escola. Também não sabe como irá o professor reagir desta vez, mas o descaso empossa-o de uma exaltação libertadora de super-herói: ainda o professor não esboçou um gesto e já o Ivan agita no ar os braços, brindando o respeitável público com dois portentosos piretes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:57


Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.



Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

foto do autor


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D